O diretor James Gray é, sem dúvida, uma figura importante na trajetória de Joaquin Phoenix. Os dois já trabalharam juntos em quatro filmes, desenvolveram uma grande amizade ao longo dos anos, e Joaquin nunca esconde o desejo de voltar a colaborar com o diretor no futuro.
Pensando nisso, resolvi trazer a tradução deste artigo para quem tem interesse em conhecer um pouco mais sobre a carreira e outros trabalhos de James Gray. Espero que gostem!
Via highonfilms.com: Cada menção ao nome de James Gray nos círculos cinematográficos mais amplos soa como um apelo por reconhecimento gritado para um vazio vasto e cético. Seus maiores defensores deleitam-se com a força emocional crua de sua narrativa dramática à moda antiga, matizada por uma sensibilidade moderna voltada à desconstrução de gêneros; contudo, o grande público permanece indiferente àquele que frequentemente vê apenas como um diretor americano adorado na Europa por seus filmes de gângster — obras sólidas, porém, no fim das contas, apenas competentes. Tais críticos estão, obviamente, profundamente equivocados, mas essa percepção predominante persiste, relegando o impacto real de Gray e de sua obra à condição de um dos heróis tragicamente subestimados do cinema americano.
Assim como ocorre com Martin Scorsese, a reputação de Gray — visto por muitos como pouco mais do que um realizador de dramas sobre gângsteres — é tão injusta quanto a falta de reconhecimento mais amplo que, por sua vez, Scorsese não chega a sofrer; afinal, ao longo de mais de três décadas, o cineasta explorou as profundezas da ambição atormentada e das desavenças familiares tanto na imensidão do espaço sideral quanto nos recantos menos acolhedores dos bairros de Nova York.
Dispor todos os seus filmes lado a lado torna essa versatilidade discreta ainda mais impressionante; ao mesmo tempo, a coerência subjacente que os une resulta em uma filmografia sólida, da qual qualquer autor se orgulharia.
9 – The Immigrant (2013) – No Brasil recebeu o título de “Era Uma Vez Em Nova York”.

Até Era uma Vez em Nova York (The Immigrant), os retratos de James Gray sobre as lutas de classes em Nova York restringiam-se, em grande parte, à época em que os filmes foram realizados; esta foi, porém, a primeira vez que o diretor mergulhou de fato em uma ambientação de época específica. Seu olhar atento aos detalhes sobressai em meio à lama da Ellis Island dos anos 1920, enquanto Marion Cotillard abre caminho, com timidez, por uma cidade que foi construída por recém-chegados, mas que lhes é inteiramente hostil. É uma história tão antiga quanto a própria América, o que faz com que a abordagem particular de Gray dependa ainda mais da eficácia na construção de seus personagens, permitindo que o filme ganhe forma como uma visão contida e sombria da devastação silenciosa que lançou as bases de uma nação marcada por conflitos.
Na pior das hipóteses, o filme menos logrado de Gray sofre com um melodrama que, por vezes, beira o excesso de frouxidão, transformando o triângulo amoroso em formação numa analogia — por vezes forçada — das diversas formas como a elite americana se apropria de seus vizinhos mais desesperados, espremendo-os para extrair qualquer proveito possível de seus corpos castigados e espíritos destroçados. Ainda assim, embora algumas interpretações do Sonho Americano de meados do século levem suas metáforas brutais (ou “brutalistas”, diriam alguns) a extremos desajeitados, The Immigrant mantém um foco majoritariamente seguro, sem jamais abrir mão por completo da tragédia inerente aos seus temas.
📺 O filme Era Uma Vez em Nova York (The Immigrant, 2013) está disponível por streaming incluído na assinatura do Amazon Prime Video.
8 – Little Odessa (1994) – No Brasil recebeu o título “Fuga para Odessa”.

A maioria dos diretores leva muito tempo até que seu trabalho seja finalmente reconhecido com as honrarias que merece; Gray, porém — sempre um rebelde —, conquistou a maior distinção por seu trabalho logo no início. Com Little Odessa, ele ganhou o Leão de Prata de Melhor Diretor no Festival de Veneza, apenas para sair de mãos vazias — de forma desconcertante — de todas as suas participações posteriores em festivais. A ironia, claro, é que Gray viria a aperfeiçoar essa fórmula de filme sobre as ruas de Nova York, conferindo-lhe uma tensão muito mais cerrada e um drama fraternal mais visceral em obras futuras; no entanto, a visão segura que ele consegue revelar — praticamente já madura — desde o início é, por si só, notável.
Centrado na presença de Tim Roth no auge de sua enigmática quietude, “Little Odessa” explora os interesses recorrentes de Gray na interseção entre a necessidade do mundo do crime e o distanciamento fraternal, com um vigor direto que alia o ímpeto da juventude a uma abordagem imponente e focada no gênero. Mesmo que fosse apenas um prenúncio da grandeza futura, esta estreia já teria enorme valor; contudo, por si só, “Little Odessa” revela-se uma joia surpreendente — uma saga policial crua e intensa.
📺 O filme Fuga para Odessa (Little Odessa, 1994) não está disponível em nenhuma plataforma de streaming ou aluguel digital no Brasil no momento (desta postagem).
7. The Lost City of Z (2016) – No Brasil recebeu o título “Z: A Cidade Perdida”.
Em mais uma ironia envolvendo a obra de Gray, aquele que talvez venha a ser o filme mais aclamado do diretor sequer figura na metade superior desta lista. Isso, no entanto, não depõe contra Z: A Cidade Perdida, mas sim atesta a qualidade dos filmes que o superam por pouco; afinal, essa obra de Gray — a mais clássica em sua abordagem do cinema de exploração — remete a uma época em que filmes tão fascinantes e curiosos traziam, de forma mais velada, um viés sinistro de colonialismo implícito. Gray, contudo, explora essa motivação sombria em sua própria desconstrução da expansão imperial — uma abordagem mais explícita, porém marcada por uma sobriedade absoluta, tanto nas cores quanto no ritmo.

Como um filme de Powell e Pressburger em tons desaturados, vindo de um universo paralelo, “Z: A Cidade Perdida” envolve-se na névoa difusa da Amazônia para explorar, com maestria, a devastação avassaladora que ocorre quando a ambição de adquirir conhecimento cede lugar à ambição pela ambição em si. Para Gray, as paredes opressivas de um escritório repleto de mapas e artefatos amazônicos são muito mais sufocantes do que a densa copa de uma floresta que deixa passar apenas um tênue feixe de luz por entre as folhas.
📺 O filme Z: A Cidade Perdida (The Lost City of Z, 2016) está disponível no Brasil exclusivamente para aluguel digital na loja do Amazon Prime Video por R$ 6,90.
6 – The Yards (2000) – No Brasil recebeu o título de “Caminho Sem Volta”.

Depois de deixar o público digerindo seu filme de estreia por seis anos, o retorno de Gray ao cinema, em 2000, trouxe outra saga policial de tom contido — desta vez, uma história em que a fraternidade é mais uma questão de vínculo assumido do que algo definido explicitamente por laços de sangue. Apostando novamente na escala de criminalidade de médio porte que conferiu a “Little Odessa” seu caráter tão envolvente e contido, “The Yards” mostra Gray plenamente imerso em um universo de intimidação e extorsão, onde subornos e uma corrupção silenciosa delimitam as fronteiras do crime organizado. Ao manter a trama criminal tão ancorada na realidade, o filme torna as implicações pessoais ainda mais contundentes, pois até mesmo a menor das transgressões é suficiente para levar uma vida inteira ao colapso.
Embora The Yards inegavelmente sofra com a atuação um tanto travada de seu protagonista, Mark Wahlberg — sem querer insistir em críticas a um ator que já é alvo de comentários negativos excessivos sobre seu talento, mas este certamente não foi o seu melhor momento —, Gray tem a sensatez de cercar o ator principal de profissionais experientes e calejados. A naturalidade com que eles se portam cria um retrato vívido de vidas que já existiam muito antes de as câmeras começarem a rodar. No entanto, saber se essas vidas perdurarão muito após o encerramento das filmagens é outra história, pois o filme jamais abandona a sensação de que qualquer passo dado ao longo daqueles trilhos pode ser o último.
📺 O filme Caminho Sem Volta (The Yards, 2000) não está disponível em nenhuma plataforma de streaming por assinatura ou aluguel digital no Brasil no momento (desta postagem).
5. Two Lovers (2008) – No Brasil recebeu o título “Amantes”.

O melodrama sempre esteve presente, em certa medida, no estilo de James Gray, mas Two Lovers marca a primeira vez que o cineasta nascido em Flushing se sentiu impelido a mergulhar de cabeça nas calamidades emocionais de um desencontro amoroso, com o comprometimento de um dramaturgo cego pelas lágrimas de mil desilusões amorosas. Ao mesmo tempo, Gray mantém sua estética de tons contidos, conferindo um aspecto cru e desgastado a essa tragédia amorosa a três, o que a torna plenamente compatível com um cenário contemporâneo mais cínico.
Apesar de tudo isso, Gray acaba por se alinhar a um sentimento de esperança coletiva que, embora talvez não supere totalmente a força de sua desilusão amorosa, enxerga uma nesga de possibilidade de reconstrução pessoal diante de uma vida que não seguiu o rumo que se esperava.
Explorando ao máximo a capacidade inata de Joaquin Phoenix de retratar homens profundamente destroçados pela vida, Two Lovers investiga as contradições e impossibilidades de uma união que jamais poderá se concretizar — por mais que escapadelas hormonais em telhados possam levar a crer no contrário. Se tendemos a atribuir as reviravoltas de nossas vidas ao acaso ou a uma força superior, Gray sugere aqui que é a vontade das próprias pessoas que tem maior poder para destruir brutalmente as expectativas sobre aquilo que poderíamos ter sido.
📺 O filme Amantes (Two Lovers, 2008) está disponível para streaming no Amazon Prime Video incluído na assinatura.
4. Ad Astra (2019) – No Brasil recebeu o título “Ad Astra: Rumo às Estrelas”.

O próprio Gray será o primeiro a lhe dizer que a versão de “Ad Astra” a que o público tem acesso atualmente não é aquela que ele idealizou como sua expressão de conflitos com a figura paterna que se estendem pelas galáxias mais remotas. Gray é um mestre, mas suas próprias escolhas não estão imunes a críticas, pois “Ad Astra” — mesmo em sua forma resultante de concessões — continua sendo uma obra excepcional de ficção científica reflexiva.
Com a atuação contida de Brad Pitt e a narração persistente conferindo ao filme um ar de meio-termo entre 2001: Uma Odisseia no Espaço e Apocalypse Now, a obra encontra um caminho totalmente distinto para navegar pelo vazio absoluto das estrelas — algo que já vimos tantas vezes antes.
Com lampejos de elementos explosivos típicos do gênero — que podem deixar o espectador médio acostumado ao estilo de Gray um tanto atordoado, com direito a perseguições ao luar e babuínos espaciais assassinos! —, “Ad Astra” encontra, nesses toques inusitados, uma estranha serenidade nas possibilidades do cosmos. É algo capaz de fazer até mesmo o mais endurecido comandante de missão vacilar diante do peso (ou da ausência dele) de uma expedição na gravidade zero para descobrir o potencial de vida muito além da Terra. Mesmo quando não nos sentimos em casa em nosso próprio planeta, essa esperança em algo mais distante pode nos dar o fôlego necessário para enfrentar o que temos logo à nossa frente.
📺 O filme Ad Astra: Rumo às Estrelas (2019) está disponível no Brasil por meio do streaming por assinatura no Paramount+.
3. Paper Tiger (2026) – No Brasil ainda sem título oficial.
Com 32 anos de carreira, é compreensível que espectadores de longa data de Gray — sejam ou não admiradores fervorosos de sua obra — sintam certa apreensão, ou até mesmo puro tédio, diante da perspectiva de mais um filme sobre gângsteres de pequeno porte e laços de fraternidade sob o domínio da máfia russa. No entanto, se “Paper Tiger” não ganha pontos pela originalidade da premissa, Gray certamente compensa isso com um comprometimento emocional absoluto.

Em nenhum outro lugar ficou tão evidente a dívida do diretor para com a rigidez da masculinidade americana típica dos anos 50 e os ritmos arrebatadores do melodrama clássico; o filme se beneficia plenamente dos atritos resultantes, refletidos em suas próprias representações de até onde alguns estão dispostos a ir para proteger os seus — ou até mesmo para se protegerem daqueles que lhes são próximos.
É nessa mesma toada de repressão que as atuações em Paper Tiger — por mais criticadas que sejam suas demonstrações calculadas de dramaticidade (deixem a Scarlett Johansson em paz; ela entendeu o que precisava ser feito!) — se encaixam perfeitamente na visão de catástrofe em escala microcósmica de Gray, na qual nada é mais devastador do que o abismo que se abre entre irmãos, pais e filhos, maridos e esposas. Se o empresário bem-sucedido vivido por Adam Driver parece ser alguém que só sabe falar, Gray o submete a uma provação silenciosa e intensa para demonstrar exatamente até onde um irmão é capaz de ir para defender alguém que sequer percebe a encrenca que está atraindo para todos ao seu redor.
🎬 Exibição Especial no Brasil: O filme foi selecionado como o título de abertura da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, com a primeira exibição agendada para o dia 14 de outubro de 2026. O lançamento no circuito comercial de cinemas brasileiros acontecerá logo em seguida, em novembro de 2026, com distribuição realizada pela Diamond Films.
2. We Own the Night (2007) – No Brasil recebeu o título “Os Donos da Noite”.

Eva Mendes estirada de forma sedutora em um sofá nos fundos de uma boate; Joaquin Phoenix surgindo lentamente das sombras, pronto para o bote; “Heart of Glass”, do Blondie, tocando em volume máximo nas caixas de som do ambiente ao lado. Essas são as imagens e os sons que introduzem o auge das sagas policiais de Gray, enquanto “Os Donos da Noite” (We Own the Night) mergulha nas profundezas do crime organizado infiltrado — tal qual uma montanha de cocaína aspirada numa inalação profunda. No entanto, a “queda” após esse êxtase é tão avassaladora quanto tal euforia intensa poderia prenunciar.
Esta é, provavelmente, a mais direta das explorações de gênero de Gray; no entanto, a natureza desconstrutiva de sua narrativa centrada em um informante relutante não apenas dialoga com sua constante preocupação temática com o poder do sacrifício fraternal, mas também se revela surpreendentemente envolvente na condução de sua tensão sufocante — “Leve como uma pena”? Talvez não. Ao inverter com inteligência a dinâmica entre protagonista e coadjuvante estabelecida em “Caminho Sem Volta” (Wahlberg se encaixa muito melhor em um papel menor aqui, enquanto Phoenix assume o comando), Gray cria a convergência mais poderosa de seus interesses recorrentes como cronista de um sobrevivencialismo americano relutante.
📺 O filme Os Donos da Noite (We Own the Night, 2007) está disponível para streaming no Amazon Prime Video por meio de assinatura
1. Armageddon Time (2022) – No Brasil manteve o título “Armageddon Time”.

Espera-se que praticamente todo cineasta de renome faça, em algum momento de sua trajetória, uma obra autorreflexiva sobre a própria formação, na linha de Os Incompreendidos ou Os Fabelmans. Para James Gray, esse momento chegou em 2022, quando Armageddon Time retratou seus anos de formação com um olhar propositalmente contido sobre a Nova York dos anos 1980. Era uma época de ambição capitalista desenfreada, e Gray não hesita em retratar o privilégio de classe de que desfrutou inconscientemente, à custa de outras pessoas em sua vida que não tiveram a mesma sorte.
Ao mesmo tempo em que lança luz sobre os reflexos muito reais da perseguição aos judeus na sociedade americana, “Armageddon Time” aborda a inevitável desilusão que surge ao percebermos que, independentemente de quem você seja, ascender na escala social quase sempre significa deixar outra pessoa um ou dois degraus abaixo de você.
Não existe solução individual para um problema sistêmico alicerçado na necessidade de rebaixar o próximo; o modo como Gray confronta essa verdade resulta em uma das críticas mais contundentes — ainda que silenciosa — ao excepcionalismo americano no cinema moderno. Quando o seu povo enfrenta assédio e maus-tratos sistêmicos por gerações, você aproveita qualquer oportunidade de vantagem que surja; no entanto, uma vez que se alcança esse patamar, torna-se difícil ignorar aqueles que não conseguiram dar o mesmo salto, ao perceber que a sociedade os deixou para trás.
📺 Armageddon Time (2022): Disponível para streaming no Prime Video.
